Bushcraft vs Acampamentos Selvagens

Parece haver hoje em dia, aqui no Brasil, uma certa confusão no emprego e entendimento do termo bushcraft, entre aquelas pessoas que gostam de atividades ao ar livre. O uso da palavra em questão tem sido aplicado aleatoriamente por qualquer um que realiza atividades no mato. Dentre aqueles que comumente fazem uso da palavra bushcraft, temos os amantes dos acampamentos selvagens, em que são utilizados o mínimo de equipamentos hightech; ou ainda, os caçadores esportivos, pescadores, ou simples aventureiros de final de semana, que só querem esquentar sua água para um miojo em uma fogueira no mato. etc. O termo parece estar sendo associado diretamente à quaisquer atividades realizadas em locais naturais, mas que pouco ou nada tem daquilo que se denomina atualmente por bushcraft. Isso para não falarmos, talvez da confusão mais comum, entre o que seria bushcraft e sobrevivência moderna, a qual não é o alvo deste artigo.

O fato de estarmos no mato acampando com redes ou barracas, fazendo fogueiras com pederneiras, não significa, necessariamente, que estamos praticando bushcraft. É preciso que se entenda bem a diferença entre todas estas atividades, que se sobrepõe de alguma forma e tem como pano de fundo o mesmo ambiente natural, mas que possuem propósitos bastante diferenciados para aqueles locais.

Obviamente, a melhor maneira de começarmos a discernir a diferença, seria pela identificação do termo bushcraft em si. De uma maneira geral, dizemos que a palavra bushcraft pode ser traduzida para o português como “Arte do Mato”, ou seja, a habilidade de entrar e permanecer em uma região natural, utilizando o mínimo de ferramentas, bem como, possuir um conhecimento sólido acerca dos recursos naturais locais (do mato) disponíveis para a manutenção da vida humana em tais ambientes. Essa definição, ou algo bastante semelhante, pode ser encontrada em quase todas as fontes de consulta sobre o assunto.

A partir, então, dessa noção e entendimento, podemos perceber que a prática do bushcraft, em sua origem, esta diretamente associada ao conhecimento, primitivo, aborígine e milenar, e que vem sendo transmitido de gerações a gerações por aqueles povos e tribos que ainda preservam e praticam tais técnicas, seja como forma de manter sua identidade cultural, como algumas tribos americanas, ou ainda, como forma de subsistência diária através dos séculos, presentes, por exemplo, em certas regiões da África ou América Do Sul.

Percebemos, também, desta forma, que para todos aqueles povos e tribos que sempre dependeram de tais técnicas aborígines, o bushcraft não era uma opção exótica de lazer ou esporte, mas sua tênue garantia de vida, em regiões, muitas vezes, em que a existência humana era tão frágil, quanto às ferramentas usadas para assegurar um novo amanhecer para aqueles que dispunham unicamente de tais recursos, que apesar de vistos como “arcaicos” por nossos olhos acostumados às maravilhas do séc. 21, eram, de fato, artefatos bastante sofisticados e eficientes para sua época.

Nada mais lógico, então, que um indiozinho entrar na mata, sozinho e não sentir medo daquelas circunstâncias, que para ele são naturais e normais, mas que pareceriam e seriam, de fato, bem assustadoras para pessoas urbanas, distantes, em suas metrópoles modernas.

Apesar de tal constatação parecer e ser bem óbvia, é preciso que levemos em consideração esse aspecto, ao tratarmos das pessoas urbanas que vão começar a adentrar áreas naturais, para a prática do bushcraft. Assim como foi mostrado na série de vídeos  sobre o assunto, que se encontra em nosso canal (giutoniolo) no YOUTUBE, deve haver um período de aclimatação, por parte daqueles que se dispõe a passar tempo no mato, para que eles possam começar a se familiarizar com os ciclos naturais locais, tais como as características da fauna e flora das regiões específicas para onde eles estão adentrando.

Vários iniciantes do bushcraft começam a acampar em redes e a fazer fogueiras com pederneiras e realizam tarefas relativamente normais de um acampamento, como coletar e tratar água, etc. Nós podemos chamar isso de “prática do bushcraft”? De uma forma  bem mais abrangente, cremos que sim, desde que aquilo represente seu estágio atual em termos de seu desenvolvimento na prática do esporte. Não podemos esperar deste iniciante, o mesmo desempenho de alguém que já esteja familiarizado com o mato, seja por ser um índio nativo ou por ter tido o privilégio de ter nascido próximo às áreas que favoreciam tal prática e conhecimento, ou por terem aprendido com mateiros locais, etc.

Temos aqui, desta forma, uma outra questão:

Há, então, graus de acampamentos, em que a prática do bushcraft pode estar envolvida em apenas um ou todos os aspectos das atividades desenvolvidas naquele local. Digamos que eu vá para uma região natural pretendendo descobrir quais tipos de madeiras locais favorecem a construção do kit de fogo do tipo Broca & Arco (Bow Drill), ou talvez, quais plantas locais possuem boas fibras que possam ser usadas na confecção de cordas para amarras, etc. Cremos que todo o tempo devotado à obtenção de tal conhecimento, esta diretamente relacionado à prática do bushcraft , ainda, que outras técnicas não tenham sido praticadas. Houve vários momentos em que estivemos por um dia ou mais, no mato, utilizando abrigos artificiais como redes, ou barracas, fazendo fogueiras com pederneiras e usando iscas artificiais como algodão e vaselina para o fogo inicial e comendo comida trazida de casa. Mas, mesmo dispondo de tais recursos modernos e não naturais, passamos muito tempo aprendendo sobre outros recursos específicos que requeriam um estudo ou observação mais detalhada e demorada, até que tais recursos pudessem ser utilizados de forma mais consciente, consistente e eficaz. Tudo isso geralmente leva tempo e não ocorre em poucos acampamentos.

No entanto, na medida em que o indivíduo progride em seu aprendizado das técnicas primitivas ou técnicas que se valem de recursos naturais, ele poderá fazer incursões no mato, utilizando cada vez mais tais recursos e conhecimentos técnicos aborígines, para sua permanência lá, ainda que temporária (curto / médio prazo), já que ele (na maioria das vezes) não possui autonomia total de subsistência à longo prazo,  tal como tratamento médico e hospitalar em caso de acidentes com animais, quedas etc, ou ainda, falta de nutrição adequada e garantida, etc.

Se desejarmos ser completamente primitivos ou aborígines, teremos de abrir mão de todo e qualquer recurso moderno e contemporâneo e que não seja proveniente dos períodos arcaicos da humanidade. Teremos, então, de construir, manter e utilizar um abrigo natural, independentemente da região em que se viva. Diremos, também, então, adeus às lanternas à pilha, roupas de nylon / poliéster e tudo mais que já faz parte de nosso dia-a dia, e cuja substituição por itens primitivos, pode não ser tão simples ou sequer possível.

Sairemos com arcos e flechas para caçar e abater nosso alimento? Vamos começar a espalhar mundéis, arapucas e laços pelas matas? Por quanto tempo brincaríamos de “homens da caverna”? Uma, duas semanas? Por um mês direto? Ou talvez, por um ano inteiro? Quem sabe, também, não começaríamos a tratar nossas doenças com raízes, folhas e plantas locais? Até quando ficaríamos assim? Até termos de ir ao dentista para retirar um dente doente, ou tratar de um ferimento ou doença mais graves e que requerem cuidado e supervisão médica, etc? Onde deve ser traçada aquela linha que separa o uso exclusivo das técnicas primitivas do uso dos recursos modernos oferecidos pela nossa presente tecnologia?

Até que ponto nós podemos ou devemos determinar o grau de “pureza” com o qual se pratica o bushcraft? Devemos tentar andar como os nativos locais faziam, o que em nosso caso implicaria em andarmos nus e descalços pelo mato, ou podemos nos conceder o uso de certos graus de conforto, como calçados, que vários desbravadores também usavam ao chegar para explorarem o novo mundo? Teremos de fazer mocassins ou somente poderemos usar (ou não) os calçados dos nativos locais, que no caso do Brasil, andavam quase todos descalços? Será que devemos nos cobrir de penas também?

Seria conveniente nos limitar tão somente ao uso de nossas lamparinas feitas com conchas de animais ou de cerâmica; ou quem sabe entalhadas em pedras para serem usadas com gordura animal tendo a taboa com pavio, ou poderemos igualmente utilizar as vantagens oferecidas por uma Headlamp a led, quando for conveniente termos as duas mãos livres para realizarmos atividades no escuro?

A realidade, é que isso tudo nem sempre é fácil ou simples. Há várias questões relacionadas ao tema e todas elas apresentam graus de dificuldade que vão desde ordem prática, técnica e legal, etc para sua realização.

Todas essas são questões que deveremos considerar, se desejarmos estabelecer as fronteiras daquilo que consideramos bushcraft “100% puro e verdadeiro” (se é que tal coisa existe hoje em dia aqui entre nós) ou não.

Já os acampamentos selvagens são atividades em que, geralmente, a pessoa se vale de todos os recursos modernos, trazidos para o mato por ela, para permanecer naquele local, sem que a dependência de recursos naturais para seu bem estar ou permanência lá ocorra. Por exemplo, em geral,  são usadas barracas de nylon, fáceis de transportar ou armar, ou ainda, redes de selva com coberturas (minha forma de abrigo favorito em acampamentos selvagens), pederneiras e fogareiros para se produzir fogo e cozinhar sem que haja necessidade de fazer fogueiras à lenha; preparo e consumo de alimentos industrializados de fácil acesso, GPS, bússolas, várias lâminas, etc.

Obviamente, como já foi apontado, há, de fato, pontos em comum e que se sobrepõe dentro dessas duas áreas, já que todas elas podem ser realizadas no mesmo local ou ambiente, mas, que possuem, na realidade, abordagens bem diferenciadas uma da outra.

Um destes pontos em comum, seria o fato de que, quer estejamos praticando o Bushcraft, totalmente dependentes de meios naturais locais para nos mantermos, ou quer estejamos acampando com aquilo que há de melhor e mais avançado em “tecnologia mateira”, ainda assim, somos o mesmo organismo humano que funciona e possui, basicamente, as mesmas necessidades de 30.000 anos atrás, ou seja, precisamos manter a temperatura interna de nosso corpo regulada, evitando, desta forma, a hipotermia. Temos de obter água para nossa hidratação, ingerir alimentos (energia) para nos mantermos e realizarmos todas as tarefas necessárias durante o tempo em que estivermos lá, etc.

Finalmente, uma vez que nós tenhamos compreendido a natureza distinta de tais atividades, nós poderemos enxergar mais claramente, aquilo que de fato ocorre quando vemos pessoas no mato, realizando atividades das mais diversas e que possuem todas elas o mesmo pano de fundo e cenário, pois, em geral, independentemente da modalidade de atividade esportiva ou de lazer que se pratica no mato, talvez, o grande ponto em comum entre tais praticantes, seja o amor e a vontade de estar junto à natureza, em um ambiente saudável, fazendo aquilo que se gosta, aprendendo a respeitar e a preservar sua área e seus recursos naturais.

Giuliano Toniolo é professor de sobrevivência e bushcraft da Escola Mestre do Mato. 

Acesse: http://www.mestredomato.com.br

Canal do Giuliano no YouTube: http://www.youtube.com/user/giutoniolo/videos

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    27 Responses to Bushcraft vs Acampamentos Selvagens

    1. Scatch on 18 de junho de 2012 at 6:11 PM

      bela parceria!!! O blog ficará muito bom com novos escritores!Giu em um proximo artigo fale sobre orientação no mato sem bússola!t+

    2. Roger on 18 de junho de 2012 at 6:40 PM

      Parabens ao TOCANDIRA por essa parceria que so vem agregar conhecimento ao blog, parabens pela excelente materia inicial e que a parceria traga bons frutos aos leitores do blog..Abraço…..

    3. Ivan Scarola on 18 de junho de 2012 at 7:34 PM

      Em primeiro lugar gostaria de parabenizar pela parceria e pelo artigo que foi bem esclarecedor, porém me ocorreu uma dúvida. A questão é a seguinte, quando vou para o mato com meu filho de 12 anos e ensino a fazer um tripé de madeira, uma cadeira do mato, acender fogo de forma primitiva, ensino a fazer abrigo com Guaricanga…, porém para dormir usamos tenda e rede, ou até lanterna e equipamentos mais modernos tal como saco de dormir para proteção do frio, estou praticando Bushcraft ou camping selvagem? Caso isso seja camping selvagem tenho que mudar o nome dos meus vídeos. Obrigado e grande abraço.

    4. José Luciano Gasparello Filho on 18 de junho de 2012 at 11:34 PM

      Caro Ivan,

      Vou citar meu ponto de vista. Se você vai para o mato com a intenção de aprender técnicas de sobrevivência ancestrais, você pode sim estar praticando bushcraft. Como o Mestre do Mato citou em seu artigo, o aprendizado é lento, e não podemos evitar de usar utensílios modernos para nossa própria segurança. À medida que vamos aprendendo mais sobre as técnicas mateiras, menos equipamentos modernos serão necessários para a prática de bushcraft.

      Agora, se você vai para o mato (como muitas vezes vou) só para curtir a natureza, pescar, fazer uma comida com fogareiro, apreciar a noite perto do lampião, isso definitivamente não é bushcraft!

      Muitas pessoas tem colocado o nome buscraft em seus vídeos para tudo. O artigo apenas alerta que o simples fato de irmos para o mato acampar, não pode ser considerado bushcraft. Por outro lado, quem faz uso de equipamentos modernos com vistas à segurança ou para suprir necessidades que ainda não consegue retirar da natureza, não quer dizer que você não seja um praticamente das artes do mato. Existem diferentes níveis de conhecimento.

      O importante é estar em contato com a natureza da forma que você preferir, seja praticando as artes aborígenes, seja estando protegido por modernas barracas e equipamentos!

      Boa aventura!

    5. Eduardo AN7 on 19 de junho de 2012 at 12:05 AM

      Giuliano, Parabéns por mais essa conquista para o BushCraft no Brasil. Parabéns!

    6. Giuliano Deinner Toniolo on 19 de junho de 2012 at 12:15 AM

      Olá Ivan.

      A idéia do artigo foi bem traduzida pelo Gasparello. Está tudo bem acampar com redes, etc e praticar outras técnicas variadas de bushcraft. Não há necessidade de se construir um abrigo natural toda vez que se vai para o mato para aprender sobre seus recursos naturais locais. Parabéns por incentivar e acompanhar seu filho desde cedo no mato. Caso o sr ainda não tenha visto, sugiro-o assistir à série no Youtube ABC do Bushcraft, em meu canal (giutoniolo, pois os vídeos tratam e reforçam aquilo que foi dito no artigo.

      Um grande abraço para vc e seu filho e sucesso no mato.

    7. Ivan Scarola on 19 de junho de 2012 at 12:44 PM

      Giuliano e Gasparello,

      Mais uma vez, parabéns e muito obrigado pela resposta.

      Grande abraço!

    8. Pedro Henrique on 19 de junho de 2012 at 4:06 PM

      Belo artigo e parabéns pela parceria! A algum tempo fazendo acampamento selvagem e pesquisando a respeito, encontrei o termo “Glamper” que também está associado a acampamentos. Pelo que entendi é um campista que quer levar a casa toda pro mato. Ele da suas voltinhas na área e passa o resto do tempo assistindo TV e comendo seus congelados preparados no microndas do seu motorhome. Nada contra, embora não ache graça nenhuma em acampar com todas as mordomias do mundo. Gostaria de saber se o termo Glamper é mais ou menos isso ai ou se foi mesmo só algum conteúdo humorístico sobre acampamentos que li.
      Abraço

    9. José Luciano Gasparello Filho on 19 de junho de 2012 at 6:46 PM

      Recomendo que assistam a série de vídeos que o Giuliano citou: ABC do Bushcraft. O primeiro vídeo está no link a seguir: http://www.youtube.com/watch?v=DRzZS3y5vW0

    10. Fry on 20 de junho de 2012 at 6:04 AM

      Só tenho algumas dúvidas, quem irá julgar e segurar a linha que divide o bushcraft do acampamento selvagem, e também quem vai inspecionar a intenção do cara que faz e pública o vídeo podendo ter somente um aspecto ou outro de bushcraft e o restante serem aspectos de acampamentos selvagem ? O vídeo de tal amigo merece ser julgado como confuso por ter um ou outro aspecto de bushcraft e o restante ser com equipamentos modernos ? O amigo deve deixar de usar o termo e só deixar o termo para os experientes afim de não virar exemplo de confusão citados pelos mais experientes ? Outra dúvida é que se haverá uma comissão julgadora do bushcraft aonde teremos que nos policiar e até evitar usar o termo para não sermos julgados pela comissão ? No caso de estar em campo praticando técnicas de sobrevivência ou simplesmente um acampamento selvagem porém nessa estadia forem feitas coisas primitivas e os títulos incluírem a palavra bushcraft, será incorreto postar ele já que não é o vídeo todo de bushcraft ? tenho essas dúvidas pois apesar da clara explicação dos conceitos na visão do Giuliano eu meio que entendi que o bushcraft é pra poucos então e que isso abrirá espaço para julgar a intenção das pessoas já que ngm sabe se o cara foi lá estudar o ambiente ou simplesmente acampar, quem irá julgar isso ? Os reviews podem ser considerados assuntos de Bushcraft ?se não poderem, qual a lógica de falar de Bushcraft em meio a reviews ? poderíamos desconsiderar por exemplo um review de canivete para Bushcraft já que canivete é moderno e Bushcraft é arcaico ? gostaria de ter as dúvidas esclarecidas, vlw.

    11. José Luciano Gasparello Filho on 20 de junho de 2012 at 11:18 AM

      Caro Fry,

      Acho que a questão não é sobre julgamento, mas sobre o uso correto da palavra importada “bushcraft” . Do meu ponto de vista, esta é uma modalidade de atividade mateira pouco conhecida no Brasil e que deve ser divulgada por todos os praticantes, iniciantes ou não, da melhor forma possível. Como toda atividade pouco conhecida, se faz necessário alguns esclarecimentos para que as pessoas compreendam do que realmente se trata. Com o tempo, as dúvidas sobre o uso do termo devem se dissipar.

      Abraço

    12. Fry on 20 de junho de 2012 at 2:44 PM

      Entendi Gasparello, na verdade acho que o pessoal que coloca o título nos vídeos sabe a diferença, mas é que eles achavam que por praticar uma coisa ou outra de bushcraft já dava direito de por isso no título e ajudar a difundir a arte, mas pelo que entendi não é bem assim. A arte do bushcraft pelo que venho pesquisando esses tempos é uma coisa simples, usar meios e recursos naturais para suprir necessidades temporárias ou permanentes no mato, e nem todos vão ir pro mato só pra praticar isso, ai é onde fica difícil em saber se devemos ou não continuar usando o termo já que algumas pessoas podem se sentir no direito de julgar se o vídeo é ou não de bushcraft, muitas vezes pode haver apenas um aspecto treinado e os outros serem modernos, eu mesmo depois dessa vou remover o nome bushcraft de todos meus vídeos mesmo tendo eles muitas coisas usando recursos naturais porém não só os naturais, mas melhor não dar chance para más interpretações, vlw.

    13. Giuliano Deinner Toniolo on 20 de junho de 2012 at 3:17 PM

      Olá Fry,

      entendi bem sua colocação. Vamos lá. Não creio que a questão seja julgar se a pessoa esta fazendo bushcraft ou não. Eu vou para o mato usando o acampamento selvagem para me manter, enquanto estudo aspectos naturais que requerem tempo. Como eu expliquei no artigo, isso é sim bushcraft, mesmo que eu não esteja em uma caverna fazendo fogo com o bow drill. Muitas vezes, eu fui para o mato e só sentei lá e fiquei observando por horas. Eu não estava acampando, não fiz fogo, não coletei água, nada disso. Somente fiquei lá observando, sem ter nenhum outro objetivo, a não ser ver as características do local. Meses depois, tive a idéia de testar a teia de aranha com poeira de madeira e carvão moído. Fiz a experiência e foi interessante, etc. Mas ela foi fruto de observações prévias em que não estava praticando técnica nenhuma aparente. E então, ficar lá parado observando era bushcraft? Num sei! Talvez sim, talvez não. Não me preocupo em julgar isso. No entanto, o termo bushcraft, esta, sim, intimamente ligado as técnicas aborígines e primitivas em um grande aspecto. No entanto, não quer dizer que nós praticantes do bushcraft deveremos ir para o mato iguais aos índios ou aos homens das cavernas. Pq se não, teremos de começar a usar pedras e pararmos de usar metal e isso seria um radicalismo sem propósito. Hj em dia, quando quero ficar só nas técnicas primitivas eu uso e levo um monte de coisas que em geral eu não usaria em um acampamento selvagem.

      Creio que acampamentos selvagens possam ser usados como uma estrutura no mato, para se praticar bushcraft de uma forma mais localizada, tipo aprendendo uma técnica específica, mas isso não quer dizer que o simples fato de se estar com uma rede no mato seja bushcraft. Não sou eu que estou dizendo isso, mas esse é o conceito universal destas duas formas de modalidade de atividade que usam o mesmo local e pano de fundo.

      Aqui no Brasil, essas técnicas de bushcraft desde sua origem, sempre estiveram ligadas ao conhecimento local dos mateiros, caçadores, gente que conhece e utiliza as plantas e os recursos naturais locais para sua subsistência. Os verdadeiros mestres do mato, em geral, são pessoas que andam descalças, com roupas simples e velhas, não sabem usar a forma padrão do português e nem se expressar conforme a norma culta e padrão estabelece, e por isso, não são valorizadas ou tem seu conhecimento valorizado e reconhecido.

      Hoje em dia, no entanto, essas técnicas mateiras, receberam um nome chique e importado e você tem pessoas com formação e cultas falando e valorizando isso tudo e há toda uma nova indústria de programas de tv e equipamentos, além de experts virtuais, etc. Tanta coisa foi posta sobre a origem desse conhecimento aqui no Brasil, que a coisa toda acabou ficando meio opaca e encoberta por tantas abordagens novas que são lançadas sobre o termo.

      Não creio que bushcraft seja para poucos, mas creio que ele seja para quem tenha paciência para ir para o mato, independentemente da época do ano e gastar tempo lá, aprendendo a utilizar os recursos locais, independentemente de usar o acampamento selvagem para se manter enquanto aprimora suas técnicas. Ele deverá usar lanternas sim, e aquilo mais que achar necessário para facilitar sua estada e aprendizado. Não quis e não quero elitizar o bushcraf, pq ele em sua origem e essência, é o conhecimento popular ancestral. Mas tbm eu não quero ver o termo sendo empregado de forma aleatória, só por se estar acampando no mato com equipamentos modernos. Não cabe a mim julgar quem faz o que no mato, mas ajudar as pessoas a entenderem o que elas estão fazendo lá.

      Não creio que precisamos provar para ninguém se estamos lá fazendo ou não bushcraft, desde que nós tenhamos o entendimento real daquilo que nós estejamos fazendo lá e não simplesmente usando o termo aleatoriamente. Às vezes eu vou pro mato só para acampar, testar facas ou equipamentos novos, como redes, etc e fico lá 2 ou 3 dias e não faço NADA de bushcraft. Levo água tratada, não faço fogueiras mas uso fogareiros, como enlatados, etc; Isso é bushcraft? Ao meu ver não. Isso é acampamento selvagem.

      Quanto aos que vc falou sobre o review de equipamentos, eles são reviews de bushcraft e portanto, são assuntos de bushcraft sim. Vc pode avaliar uma ferramenta no mato ou simplesmente falar dela em sua casa, como todos nós fazemos no YT e isso, ao meu ver, está completamente ligado ao bushcraft.

      Finalizando, as duas atividades podem e devem andar juntas e há, sim, graus de interação entre elas, maior ou menor, dependendo da situação ou do indivíduo, mas eu creio que haverá (deve haver) tbm o limite do bom senso, principalmente no que tange a segurança de quem está no mato.

      Vou fazer um vídeo sobre o assunto onde tentarei esclarecer mais sobre o tema.
      Obrigado pelas perguntas Fry! Espero ter ajudado.

      Grande abraço guerreiro!

    14. Fry on 21 de junho de 2012 at 12:29 AM

      Obrigado pelas explicações Giuliano, creio que essa ultima resposta sua a mimfoi fundamental para quem ler, não sair por ai julgando os colegas sobre as intenções já que alguns visam praticar ou aprimorar só o bushcraft e outros querem usar o bushcraft só como um complemento para o que gosta de fazer, como é o meu caso, devido a eu saber a importância do Bushcraft e da dificuldade de reunir informações sobre essas técnicas antigas que muitas já se perderam com nossos velhos devido a falta de interesse, foi que criamos o nosso site pra tentar reunir o máximo de informações possíveis sobre isso, porém hoje vemos que não existe como se falar só de bushcraft justamente pela quantidade de conhecimentos serem limitadas ainda e as pessoas estão começando a se adaptar ao termo e começando a questionar seus pais e avós sobre as coisas, vejo que é uma evolução lenta porém satisfatória, só apresentei aqui essas dúvidas pois esse texto gerou dúvidas e uma certa confusão em alguns membros nosso e eu achei interessante expor elas aqui para serem respondidas e não dar chance para uma ou outra pessoa talvez começar a deter os direitos sobre a arte e julgar as demais, isso acabaria com o bushcraft aqui em pouco tempo, mas você colocou bem as questões e se todos lerem sua ultima resposta a mim creio que não teremos problemas com esses julgadores, vlw abç.

    15. Toni Augusto R R on 21 de junho de 2012 at 2:33 AM

      Olá, Quem pratica o bushcraft hoje então?
      Entendo que bushcraft é vida primitiva, mas que não tem que ser necessariamente ir pro mato com uma faca de pedra, uma lança, vasilhas de barro, viver de coletar alimentos e caça… Como se fazia antigamente, certo? Posso também usar somente objetos do século XVII, XVIII e etc. certo? Como gosto muito de história -principalmente do Império Romano- venho então buscando saber sobre o modo de vida dos romanos e usar isso na prática do bushcraft, já estou construindo arco e flecha, lança e alguns utensílios…
      Meu avô era tropeiro no norte de minas e meu pai também pegou o finalzinho deste trabalho, eu mesmo já fui algumas vezes com ele em algumas viagens em cima de um carro de boi, e estou tentando construir também alguns objetos usados por eles, que consigo me lembrar.
      E então isso também é bushcraft? Ou eu tenho que somente usar objetos e vestimentas da pré-história?
      Um abraço, e parabéns pelo texo.

      Dê uma olhada neste site, não sei se você já conhece:

      http://www.ravenlore.co.uk/index.html

    16. Giuliano Deinner Toniolo on 21 de junho de 2012 at 5:10 PM

      Olá Toni.

      Olá Toni,

      o bushcraft não tem a ver com um único período da humanidade apenas, mas com todas as técnicas que foram desenvolvidas ao longo de nossa história. O flint and iron (pedra e ferro), por exemplo, começou a ser usado em Roma para fazer fogo, então é primitivo tbm sem ser pré-histórico. Foi como eu falei no artigo, a coisa começou na pré-história mas não ficou só lá não.

      Grande abraço amigo.

    17. Felipe on 22 de junho de 2012 at 7:56 PM

      Excelente explicação Giuliano, eu mesmo me policio a respeito do uso do termo “bushcraft”, mesmo que, sempre utilizando algumas tecnicas de bushcraft em minha atividade(praticada com controle e consciência ecológica e em minha propiedade e que em outros estados do Brasil é considerada ilicita diga se de passagem), e devido a experiencia adquirida com o tempo e tais tecnicas, consigo minimizar o uso de equipamento levado para o mato.

    18. Antonio miranda on 23 de junho de 2012 at 1:45 AM

      Olá Giuliano, boas explicações sobre o termo ‘bushcraft’ e Campismo Selvagem , Já a algum tempo venho me perguntando ,o que eu praticava campismo ou bushcraft . E suas colocações foram muito uteis tanto para mim como para muitas pessoas que gostam de estar na Natureza, acampando , fazendo trilhas , adquirindo experiencias de como se integrar a ela com respeito e sem subestima-la , e praticando o bushcraft como complemento de suas atividades no mato. Pois é inegável que o conhecimento de determinadas técnicas do bushcraft podem fazer a diferença em determinadas situações.
      Muito boa sua participação no blog do tocandira parabéns.

    19. Flavio on 25 de junho de 2012 at 12:15 PM

      Srs muito bom dia, interessante o tema deste tópico, principalmente pelo conhecimento e experiência de quem está comentando, Giuliano e Gasparello referências nacionais sobre o assunto, por isso gostaria da opinião de vocês.
      Depois de ler o texto aqui exposto, minha pergunta é:

      Seria correto então dizer que o acampamento comum passa a bushcraft quando:

      - O local escolhido fica longe das facilidades e estrutura
      da cidade ou de um camping convencional;

      - Começamos a aplicar os conhecimentos adquiridos com mateiros ou dos cursos de sobrevivência, para obter fogo, alimento, água e abrigo temporário ou de longa duração;

      - Quando necessário, desenvolver nossas próprias ferramentas, utensilios e vestuário;

      - Pesquisar a fauna e a flora identificando perigos e conseguir
      integrar-se e viver em harmonia e do que ela oferece;

      - Saber se deslocar e navegar utilizando bússola ou recursos naturais;

      - Saber identificar e consumir frutos, plantas comestíveis e medicinais;

      - Estar apto para montar armadilhas, caçar, pecar e se alimentar disso;

      - Conseguir viver nessa condição o tempo que for desejado ou necessário;

      - Ter consciência, praticar a preservação e utilizar todas essas técnicas com o mínimo de impacto ambiental.

      Grande abraço a todos e parabéns pelo site.

    20. José Luciano Gasparello Filho on 25 de junho de 2012 at 5:50 PM

      Caro Flavio,

      Referência sobre o assunto é o Giuliano, só estou dando uma força para divulgar a prática de bushcraft no Brasil! Bom, do meu ponto de vista e de acordo com o que o Giuliano escreveu, a ideia é tirar da natureza tudo o que for possível. Por outro lado, cada pessoa tem diferentes níveis de conhecimento. Se você for para o mato com barraca e outros equipamentos modernos, mas seu objetivo é aprender técnicas mateiras, poderá sim estar se aprimorando e praticando o bushcraft. Claro que bushcraft é um conceito bem mais completo do que simplesmente ir para o mato acampar. Nas artes do mato estão envolvidos desde conceitos de sobrevivência ancestrais, como o fogo primitivo, até a construção de utensílios artesanais, como uma colher que você precise utilizar, por exemplo, um sacola construída com fibras de Buriti, etc (são apenas exemplos).

      À medida que você vai evoluindo em suas técnicas mateiras, irá precisar cada vez menos dos equipamentos modernos. É importante salientar que a sua segurança vem em primeiro lugar, por isso leve tudo o que for necessário para a prática das artes do mato sem que você corras riscos desnecessários. Vá aprendendo aos poucos e com segurança!

    21. sid on 28 de junho de 2012 at 1:00 AM

      pelo que li acima … a expressão “buschcraft” não pertence para quem vai acampar com uma faca industrializada ? uma barraca??? comida de lata ??? ou até mesmo com uma roupa atual costurada com máquina ?? etc…etc… poderíamos então de denominar essa atividade atual como !!!! “buschcraft contemporâneo” ou “actual bushcraft” abração a todos e obrigado pelas informações deste site maravilhoso e cheio de idéias que promovem o entusiasmo ao ler todas estas matérias !!!!!

    22. Flavio on 28 de junho de 2012 at 10:45 AM

      É exatamente isso que costumamos fazer, cada vez que vamos acampar pelo menos uma dessas atividades são praticadas. Achei que estava usando o termo de maneira incorreta. obrigado e grande abraço.

    23. edmir jose de barros junior on 29 de junho de 2012 at 12:49 PM

      gostei muito com certeza implantaremos todas as adividades vista neste no proximo acampar e tenho certeza que todos os participantes irao gostar meus parabens.

    24. julio on 2 de julho de 2012 at 9:41 PM

      Grande mestre do Mato Giuliano Toniolo o embaixador do Bushcraft no Brasil.
      Venham curtir a nossa pagina e fortalecer o Bushcraft no Brasil.
      http://www.facebook.com/#!/BushcraftArteDoMatoBrasil

    25. Uilerson Colleoni on 16 de julho de 2012 at 2:24 PM

      Salve pessoal!! Gostaria de parabenizar a todos, Gasparello, Giuliano e Fry pelas perguntas e respostas aqui registradas. Vejo o quanto estamos engatinhando ainda no Brasil, seja por motivos culturais ou até informativos, creio eu que este último seja o principal, mas pelo ponto de vista aqui discutido, estamos no caminho certo. Tenho lido e buscado muita informação a respeito do Bushcraft, vejo que praticar 100% é quase impossível hoje em dia, requer tempo e desprendimento, eu particularmente não deixaria de usar uma lâmina ou até outro item no mato, pensaria sempre em minha segurança sem falar de sobrevivência. Obrigados amigos, pois foi extremamente significativa toda a informação aqui escrita. Aprendi muito, estamos no caminho certo, criticar é muito fácil, desenvolver e contribuir para este fim é o obstáculo.

      Abraço.

    26. Luis Gauna on 22 de março de 2014 at 3:42 AM

      Ola Gil
      Discordo totalmente de vc, pois bushcraft(atividade no mato) é o mesmo que acampamento selvagem, isto é bushcraft seria “6″ e acampamento selvagem seria “meia duzia”. Isto quer dizer que os gringos praticam bushcraft e nós brasileiros praticamos acampamento selvagem, a diferença meu caro é só de idioma, mas a pratica é a mesma, acontece que algumas pessoas acham “chique” usar palavras inglesas para denominar varias coisas no Brasil, onde nosso idioma é o “portugues”. Resumindo: tudo isto que vc escreveu foi como trocar “6 por meia duzia”. Falei e ta falado!!!!

    27. Giuliano Toniolo on 23 de março de 2014 at 10:52 PM

      Olá Luís. Te aconselho a estudar melhor sobre o assunto e vc verá que a questão é bem mais que o ponto do idioma que vc mencionou. Obrigado e boa sorte!

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