Relato de um sobrevivente

Abaixo, gostaria de escrever um breve relato de uma experiência vivida há mais ou menos uns 13 anos atrás.

Fevereiro de 1999, decidimos eu e meu primo subirmos a serra da Cantareira em São Paulo (capital) através de uma trilha que levava até o local onde os mamonas assassinas caíram de avião em 1996. Saímos bem cedo de casa, com uma garrafa PET pequena de água e um facão! Começamos a subir a trilha e logo percebemos que não ela existia mais e estávamos perdidos, pois o mato havia tomado conta. Naquele momento, pensamos em andar e buscar algum ponto de referência a fim de buscar a melhor saída, foi então que nos deparamos com uma imensa clareira no meio da selva, um buraco alto que não tínhamos como descer pois não tínhamos cordas e muito menos habilidades para tal exercício. Continuamos a caminhar em volta do “buraco” até que avistamos uma cabana caindo aos pedaços e sem sinal algum de estrada, trilha, pessoas ou seja lá o que pudesse nos ajudar. Nesse momento estávamos com fome e sede, pois a água já havia acabado há horas e não tínhamos comida. Coloquei a cabeça para pensar e lembrei que os bambus reservam uma grande quantia de água entre seus gomos. Peguei o facão, meu primo ajudou a segurar o bambu, que era alto, e conseguimos cortá-lo e beber água diretamente do bambu. Não tínhamos fogo nem acessórios para iniciá-lo, então, ao anoitecer veio o frio! Ficamos na cabana, que mesmo cheia de buracos, com pedaços de teto faltando nos deu uma boa guarita. O frio, tentamos driblar nos movimentando, pois como estávamos com medo, não conseguimos nem pregar os olhos para um cochilo. Quando realmente anoiteceu, buscamos tentar nos orientar pela luz da cidade de São Paulo que refletia uma grande claridade sobre o céu, mas naquele momento não tínhamos como sair em direção a luz, pois estava escuro, nós estávamos com medo e já havíamos nos deparado com um “buraco” gigantesco, então decidimos fazer uma marcação do local da claridade e ao amanhecer seguimos para o ponto marcado. Foram horas e horas caminhando, descendo e subindo até que ao final da tarde do segundo dia chegamos a “civilização” novamente. Braços arranhados e sangrando, pernas arranhadas e sangrando, muitas picadas de insetos, sede, fome, medo… Esses foram os frutos que colhemos por não termos nos preparado, não termos pensado no que poderia dar errado. Hoje se estivesse nessa situação tiraria proveito dela, pois tenho conhecimentos, habilidades, meus kits que estão sempre comigo em todas as viagens e aventuras que vou! Preparação, conhecimento de local, técnicas, plantas, animais de cada região que você estará são fundamentais! É melhor pecar pelo excesso! Avisar onde estará e a que horas pretende voltar! Não deixar de levar itens e acessórios modernos como um GPS, um isqueiro, para uma aventura de bushcraft, pois nunca se sabe o que pode acontecer na natureza! Como diz o Leonardo Rocha do desafio em dose dupla, é melhor ter/saber e não precisar do que não ter/saber e precisar! Fazer cursos, aprender com os mais experientes, colocar em pratica mesmo dentro de seu apartamento (para quem não mora em casa) também podem ajudar a você adquirir experiência. O que não recomendo a fazer é ver os vídeos do Bear Grylls por exemplo e querer sair por ai sobrevivendo com uma faca e comendo carcaças de animais mortos sem necessidade!!

Um grande abraço,

SELVA

  • André Luiz Fernandes Popelier;
  • Casado, possui um filho;
  • Formado em Administração de empresas;
  • Nasceu em 09 de julho de 1982 na cidade de São Paulo capital;
  • Praticante de esportes de aventura e bushcraft.

 

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5 comentários para “Relato de um sobrevivente

  1. Gilberto Pinheiro da Rocha
    11 de janeiro de 2013 at 12:12

    Belo relato André. Também passei por situação parecida. Hoje tenho muita “bagagem” sobre o assunto, mas prefiro não ter que usá-la!!!
    Abraço.

  2. Paulinho Itamonte
    5 de fevereiro de 2013 at 16:44

    Cerca de 20 anos atrás eu também me dei muito mal. Foi aqui mesmo em Itamonte, nas Agulhas Negras em pleno inverno com a temperatura de cinco graus abaixo de zero. Eu também aprendi uma dura lição. Depois disso até competições de trekking eu já participei. Hoje passar dias na Serra da Mantiqueira para mim é festa.

  3. jose luiz vercillo
    17 de dezembro de 2014 at 14:21

    importante mostrar que preparação é tudo e mesmo assim existem os imprevistos.

  4. Danilo Gouvea de Almeida
    17 de dezembro de 2014 at 15:08

    Bem pautado, infelizmente temos vários desses programas que trazem uma ideia superficial e falha, ver uma pessoa aceder fogo usando uma garrafa de água como lente de aumento é forte. As vezes é difícil acender fogo com fosforo, fica sempre a dica dos mestres, observe e aprenda a teoria coloque em pratica varias e varias vezes a ponto de se reduzir drasticamente a possibilidade de falha na atividade mateira, varias coisas que uma pessoa faz no mato você não conseguira reproduzir por limitações do ser corpo. Aprenda técnicas, desenvolva suas próprias técnicas e talvez você poderá se virar um dia.

  5. Philip Bronetta
    15 de junho de 2015 at 19:44

    Onde posso ter mais informações, estou querendo fazer meu primeiro teste de sobrevivência. Moro em São Paulo, gostaria de algum por perto. Tem algum lugar pra indicar?

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