O desejo de isolamento

Nunca gostei de agitação, filas, congestionamentos. Botecos e casas noturnas não são meus passatempos. Já morei em cidades enormes, médias e muito pequenas. Já sei qual a minha preferência neste quesito. Por mais que eu goste de muitas das facilidades das grandes cidades, a visão dos prédios e o grande movimento de automóveis me oprime. Gosto muito de passar alguns dias longe de tudo isso.  Uma vez por mês, mais ou menos, sigo para uma propriedade rural aonde costumo fazer meus vídeos. Nunca revelo o local exato por segurança dos moradores e de minha própria. Costumo acordar cedo, caminhar bastante, correr. O que gosto mais é sentar na sombra de uma árvore e “ouvir o silêncio”.

É interessante observar que os moradores do local gostam de barulho, TV ligada o tempo todo, gostam de visitar a cidade. É bem o contrário do que sinto. Talvez as pessoas gostem daquilo que não têm, ou talvez precisem de equilíbrio, nem tanto o isolamento total, ou a correria das grandes cidades durante toda a vida.

Mas é fato que me sinto muito bem em locais isolados, longe de tudo. Por mais que eu goste das facilidades que os grandes centros nos proporcionam, como super-mercados, bons restaurantes, cinemas, etc, prefiro passar muitos dias seguidos em locais mais tranquilos.

Tenho planejado como seria uma pequena propriedade rural que eu gostaria de possuir. Algumas galinhas poedeiras, meia dúzia de carneiros, quem sabe uma vaquinha, mais utilizada como animal de estimação do que propriamente para aproveitar o seu leite.

Consigo me imaginar coletando ovos, fazendo queijos, pão. Quem sabe produzir mel para consumo próprio. Ah, o pomar… penso num grande pomar com muitas laranjas, limões e outras frutas diversas. Por outro lado, tudo isso tenho à mão nos grandes centros, e com um pouco de planejamento e compras periódicas, é possível ter toda essa comodidade em propriedades rurais sem que precise produzir algo. Freezers, telefones, TV via satélite, até mesmo acesso à Internet já é possível mesmo em alguns lugares mais distantes.

Gostaria de provar a vida no campo, aprender mais sobre autossuficiência, mas somente por lazer, não obrigação. Talvez passar o tempo fazendo atividades para auto-sustentar a propriedade seja algo mais prazeroso que meu trabalho atual, como servidor público.

Como principal desvantagem de uma vida no campo cito a distância de atendimento médico de emergência. Já precisei sair às pressas desta propriedade que frequento num domingo à noite. São quase 100 km da cidade mais próxima. Chacoalhar à noite por uma estrada esburacada, com dor, não foi a coisa mais agradável do mundo. Consertar uma geladeira ou freezer pode ser uma dor-de-cabeça muito maior que na cidade, nem sempre os serviços básicos como energia elétrica são prestados de forma eficaz, sendo comum perder carnes congeladas devido à vários dias sem fornecimento de energia. Estou pesando os prós e os contras. Por enquanto, consigo me ver em uma vida tranquila de quase isolamento. Vejo-me da forma contrário do que vivo hoje. Gostaria de ir à cidade somente eventualmente para abastecer a geladeira, comer em um bom restaurante, e depois retorno para minha vidinha, sem prédios, sem trânsito, sem opressão. A vida das pessoas é assim, cheia de planos. Sonhar é bom, dá um objetivo para prosseguirmos nossa caminhada. Quem sabe um dia eu transforme este desejo em realidade. Enquanto este dia não chega, sigo sonhando.

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21 comentários para “O desejo de isolamento

  1. 14 de janeiro de 2014 at 10:56

    Gasparello, fui criado em fazenda dos 9 a mais ou menos 30 anos e hoje moro em apartamento. Sinto como se morresse um pouco a cada dia por estar longe do mato… Saio acampar e pescar às vezes, mas não é nem de longe o mesmo. Na hora de voltar, já bate a depressão.
    Hoje, um aspecto preocupante com estes retiros mais afastados é segurança. Somos restritos em relação a armas e a segurança que o estado oferece é nula. A bandidagem já sabe disso e agradece.
    Viver no mato é outra vida, é liberdade, é paz, é contato com a natureza… Éramos quase que totalmente autossuficientes naquele tempo.

    Abraço!

  2. José Luciano Gasparello Filho
    14 de janeiro de 2014 at 12:07

    Caro Victor Fox,

    Compreendo bem o que você diz. Quando retorno da roça e os prédios vão surgindo na linha do horizonte, bate uma boa depressão.

    A preocupação com a segurança também é um ponto importante!

    Abraço

  3. Marcus Borba
    14 de janeiro de 2014 at 16:14

    Muito bacana o texto !

    Reflete muito o meu sentimento, nasci no Rio de Janeiro, mas sempre passei férias escolares no interior de Minas Gerais onde tenho muitos parentes, lembro que era o contraste absoluto, e claro que eu gostava muito mais das pescarias, das trilhas, caminhadas, mergulhos nos rios e cachoeiras do que o concreto da cidade grande. Aprendi a andar de bicicleta, nadar, jogar bola, pescar e muitas outras atividades no interior de MG.
    Hoje já tenho 40 anos e meu planejamento é quando minhas filhas se formarem eu ir morar no interior e viver a vida que você detalhou em seu belo texto, assim acho que posso viver melhor e por muitos mais anos…
    Abraços ! e parabéns pelo site e os vídeos

    • José Luciano Gasparello Filho
      14 de janeiro de 2014 at 22:25

      Claro Marcus,

      Acredito que este texto traga boas lembranças pra muita gente!

      Abraço

  4. Luiz carlos
    14 de janeiro de 2014 at 23:28

    É,este é o sonho de muitos,trabalhei 10anos de motorista de caminhão no rio de janeiro,a pouco tempo tive que largar a profissão para cuidar um pouco de mim e da minha familia a poucos dias em casa descobri que estou com síndrome do pânico,garanto senhores é horrível,sou natural do ceara fui criado no interior e uma das coisas que me deixa feliz é saber que esta próximo o dia de retornar de vez para a minha terra,saúde e paz a todos.

  5. Ariovaldo da Costa Foliene
    15 de janeiro de 2014 at 14:57

    Oi Gasparello,

    Eu estou igualzinho a voce, e estou já vendo alguns sitios que tem somente mata nativa (APP) e pasto que vou retirar e reflorestar com mudas que vou pedir no http://www.plantearvore.com.br

    Estamos negociando ainda, um sitio tem 30 Alqueires, outro tem 17 Alqueires, tudo de mata nativa, com logoas, e fontes de água.

    Nao vou fazer casas, piscinas o outras mordomias de cidade, quero manter o local cada vez mais selvagem, quero pomar, milho, mandioca, abobora, batatas, coisas que nao precise de cultivo diario, trazer os pássaros e animais..

    se eu começar a fazer casa, vem um monte de outras coisas, manutenção, caseiro, despesas e despesas, e o objetivo é ter uma pequena Cabana de 2 x 2.50 metros bem rustica e deixar nela somente coisas que preciso ter como : ferramentas, e outros objetos para camping, alguma forma de energia limpa com painel solar, e usando carregadores para um celular ou mesmo laptop para trocar emails, carregar baterias de radio AM/FM.. e só

    Estou na luta por isso devido a problemas de stress, e doença adiquirida na loucura de viver rodeados de predios e tecnologias.

    Ari

  6. 16 de janeiro de 2014 at 13:10

    Oi Gasparello, blz… se você me permitir, faço da suas palavras as minhas… bom seria se a maioria, se não todos, tivessem o mesmo pensamento e as mesmas obras simples como essa… como nós…

    Abs.
    Herli

  7. 16 de janeiro de 2014 at 13:32

    Oi Gasparello blz… se voce me permitir, faço uso de suas palavras para expressar o meu desejo também. Bom seria se a maioria, se não todos, pensassem como nos talvez seria-mos um pouco mais feliz no dia -a-dia.

    Abs.

  8. Jeferson Gustavo Matthes
    18 de janeiro de 2014 at 21:01

    Gasparello, boa tarde!
    Este texto é quase o retrato do meu sonho,lembro de quando eu era pequeno e viajava para o interior de Lajeado, RS para ficar um tempo com minha vó e vô, literalmente no mato, a propriedade não tinha água e luz não tinha acesso para carros tínhamos que caminhar um bom pedaço até chegar,sem tv, sem nada do que há hoje e brincávamos muito, não sentia falta da cidade, a avó tinha uma bica de água dentro do mato para refrigerar algumas coisas. Muita saudade.
    Gasparello parabéns pelo bem que faz em trazer este site para nós.
    Abraços

  9. Wagner
    19 de janeiro de 2014 at 05:12

    é companheiro, em um pequeno e sincero texto vc expôs sentimentos e desejos alheios a muitos de nós. eu me vi totalmente nele, pois passo por todas essas odiosas frustrações das metrópoles. particularmente, me dói mais a dor física e psíquica dada nas doses alopaticamente diárias dos engarrafamentos q enfrento do q poderia me doer um dente ou apêndice pelos 100km de sacolejo no barro (rsrs, exageros à parte). gostaria de investir em um pequeno refúgio (achei um ótimo, à beira de uma represa, a uns 75km da capital), já estive a um passo disso, me sobra vontade, mas me falta uma certa coragem. e assim, tb me reservo um tempo no mês pra um “escapismo”, ainda q por terras emprestadas. e o sonho segue por cá tb. como bem disse Thoreau: “Fui para os bosques viver de livre
    vontade. Para sugar todo o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida e para quando morrer, não descobrir que não vivi.”
    um abç
    Wagner (numa dessas madrugadas, num plantão q teima em não acabar, rsrs)

  10. Tiago Fonseca
    20 de janeiro de 2014 at 11:14

    Excelente, muito bem colocado!
    Também sonho com algo do tipo, morar em São Paulo, sem horizontes, é muito difícil.

  11. Julio Cesar Tereska
    22 de janeiro de 2014 at 14:20

    Prezado companheiro do silencio;me reporto a você pois tudo o que voce escreveu eu faço uma vez por mês,morando em um centro grande sinto a necessidade de sentir o cheiro do mato,conversar com pessoas simples que não usam a internet,nem celular,sentir o cheiro dos animais,sentir a gentileza dos cachorros das casas nos dando boas vindas com seus rabos abanando,feliz de quem possa curtir essa paz de Espirito.Um grande abraço.
    Russo Branco

  12. Fabio Luiz de Andrade Braga
    23 de janeiro de 2014 at 15:21

    Tenho o mesmo sentimento que todos, com um agravante, já comprei há tempo um sítio com mata nativa perto da capital onde moro, mas não tenho tempo de frequentar como gostaria. O certo é conseguir o equilíbrio, um pé no campo e outro na cidade, para não precisar virar índio nem tão pouco sofrer o stress dos grandes centros.
    Já tentei “viver da roça”, mas sem uma renda de fora você tem que ter um negócio maior e tão estressante quanto qualquer outro, não aconselho aos não profissionais.
    Te acompanho há tanto tempo que já sinto sua ansiedade por uma vida mais calma e estou torcendo para que consiga realizar seus sonhos.
    Grande abraço.
    Fabio

  13. Diego
    3 de fevereiro de 2014 at 19:27

    olá admiro muito o seu trabalho o site com as instruções são de grande qualidade parabéns

  14. Marco Antonio de Prospero
    6 de fevereiro de 2014 at 04:22

    Eu também acharia maravilhoso uma vida no campo,mas não sozinho.Perfeito seria com uma companheira agradável de estar.

  15. Reinaldo Bertos
    11 de outubro de 2014 at 23:33

    É o que penso todos os dias…creio que meu fim vai ser um vida praticamente auto suficiente…ao contrário do que você relatou logo acima, eu fui a lanchonetes quando era criança hoje tenho 32 anos, geralmente não gosto do palato da comida industrial…tempero pronto nem pensar…já vi gente colocar amaciante de carne em pipoca, caldo de galinha no frango etc…meu único pecado é a coca cola hehehe ainda não consigo dispensar.

    • José Luciano Gasparello Filho
      12 de outubro de 2014 at 13:29

      Hábitos saudáveis são difíceis de manter! As comidas industrializadas são meio que hipnotizantes!

  16. Léo Lima
    30 de novembro de 2014 at 14:45

    Também partilho do mesmo sentimento, embora goste das facilidades que encontramos nas cidades, principalmente o acesso a internet, me sinto sufocado na área urbana. Sempre que posso vou para a zona rural! alguns dos parentes de minha esposa até reclamam e já me chamaram atenção por quando eu chego nas casas deles na zona rural eu não fique o tempo todo com eles, me embrenho no mato, vou caminhar em meio ao verde,como vc disse, vou para um lugar escutar o silêncio!

    • José Luciano Gasparello Filho
      30 de novembro de 2014 at 19:17

      Caro Léo Lima,

      Como morador da cidade grande, também aproveito todas as oportunidades que tenho para ficar isolado no meio do mato! Não acho esquisito, acho saudável, desde que não te afaste do convívio social por muito tempo.

      Abraço

      Gasparello

  17. OTÁVIO CARNEIRO
    16 de novembro de 2015 at 00:52

    Ol@ É um prazer muito grande em poder ler e compartilhar desse pensamento, saudável e feliz em busca do encontro com a natureza, viver uma vida de pela liberdade, com muita esperança e fé, saber que o sol, a lua, as estrelas, enfim todo planeta estará sempre nos lembrando de nosso, amigo, maior escultor e protetor, DEUS. Desejo de coração a todos que aqui deixaram um pouco de seus sentimentos, sinceros de viverem sossegados em busca da paz interior, do silêncio de suas almas e amor a todo ser vivente neste mundo abençoado pelo Senhor. Parabéns!! Eu também, agora aposentado, busco essa mesma oportunidade e sonho de viver em harmonia com a natureza, livre e soltos como as aves do paraíso Obrigado, amigo me torne seu fã. Boa sorte, vc merece ser feliz hoje e sempre. Abraço fraterno a todos.

  18. Humberto Firmo
    2 de junho de 2016 at 16:27

    Muito bom texto.
    Rapaz, esse sonho de morar distante, não tanto, da cidade já me acompanha faz tempo.
    O que não rolou ainda foi a grana pra comprar um lugar. Aqui perto de Brasília é tudo muito caro.

    Grande abraço!

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