Full tang ou faca de perfil integral?

É muito comum, ao mostrar uma faca no YouTube, que alguém me pergunte se é full tang. Não abomino estrangeirismos. Termos em inglês até soam bem para gírias de surf, de skate e para termos técnicos de informática, mesmo assim, poucos do nós, brasileiros, as compreendem.

O mesmo acontece com os termos em inglês utilizados em qualquer outra área. E haja termos técnicos quando resolvemos usar o inglês! Americano gosta de nomear todas as partes de qualquer coisa. E falando de facas, aonde as coisas deveriam ser meio óbvias e ululantes, os vários termos técnicos que encontramos acabam por tornar coisas simples em algo meio estranho, principalmente quando termos estrangeiros são utilizados. Você já parou para pensar se, ao invés do inglês, começássemos a usar termos em russo, chinês ou até mesmo em árabe? Ia ser bem bacana, não é mesmo?

Entre outras terminologias, temos a parte de aço que compõe o cabo de uma faca, ou talvez pudéssemos chamar, também, de espiga, ou seja, a parte que fica geralmente dentro das peças de madeira ou do material sintético que forma todo o cabo. Gosto de chamar esta parte simplesmente de cabo, por vezes de espiga, mas o importante é saber que se trata da composição do cabo.

Para definir se a parte de metal do bloco que está dentro ou fora do cabo, se está completa ou pela metade, entre outros fatores, determinaram uma série de nomes, que para os nativos de língua inglesa, significam alguma coisa quando falam.

As palavras full, half, hidden, etc, para eles são fáceis de entender do que se trata, mas se usássemos os mesmos termos sempre, a maioria ficaria boiando, eu me incluo nesta maioria. Apesar de entender até que bem a língua inglesa, meu vocabulário não é tão extenso assim.

Já publiquei um artigo falando sobre os tipos de desbaste de uma lâmina e suas diferentes formas de afiar. Ilustrei o artigo, na oportunidade, com vídeos do Mac e do Giuliano Toniolo, também debati um termo ou outro com o Hélio Cabral Júnior, de quem eu havia assistido alguns vídeos de afiação e julguei interessante trocar algum conhecimento, além de me certificar de outras coisas que havia escrito. A parte mais difícil daquele artigo foi definir os nomes dos desbastes em bom português, sem pretender dar um fim para o tema, mas apenas com a vontade de facilitar o aprendizado para os meus leitores.

Então… full tang é o quê mesmo? Ao invés de pensar em uma boa definição, resolvi utilizar um termo, já existente, que li em algum lugar que não me lembro.  Neste texto, as facas full tang eram chamadas de facas com cabo de perfil integral. Perfeito, sequer falava de espiga, usava somente o termo “cabo”. Adotei o termo na hora! O bloco dessas facas são únicos e estão, via de regra, à mostra no perfil do cabo, como vocês poderão conferir no vídeo abaixo.

Até comecei a desenhar algumas coisas com alguns nomes que pudessem traduzir bem os desenhos dos cabos/espigas, mas fiquei com preguiça, de tão simples que o negócio é. Resolvi, desta vez, não ter o trabalho de traduzir todos os termos, como half tang, hidden tang, push tang, rat tail, entre outros. Em pesquisa à várias fontes gringas, nem mesmo eles chegam a um consenso sobre o tema. Seguem duas fotos auto-explicativas. Se você perder um tempo traduzindo, irá ver o quanto o aprendizado se torna fácil. Como sempre gosto de salientar, não é tanto o nome das coisas que importa, mas se você compreende que uma “faca com cabo de perfil integral” é mais resistente que uma faca “rabo de rato”, mas que facas sem perfil integral também podem ser muito parrudas, como as facas com cabo injetado dos mais diferentes comprimentos de espigas. Vale lembrar que não só de cabo de perfil integral são feitas as facas, mas também de aços diferentes, tratamento térmico, espessura, entre outros detalhes. Mas os detalhes deixo para os gringos definirem!

Foto postada no fórum http://coldsteelforums.com/tm.aspx?high=&m=20254&mpage=1#20272

Infelizmente, não recordo a fonte da imagem. Quando descobrir, coloco o link.

Segue meu vídeo para ilustrar o tema.

23 comentários para “Full tang ou faca de perfil integral?

  1. Carlos Frederico Barbosa de Almeida
    24 de outubro de 2013 at 14:41

    Boa, Gasparello!
    Ótimo artigo!
    Abraço,

  2. 24 de outubro de 2013 at 15:39

    Muito bom os esclarecimentos.
    Valorizemos nosso português.
    Valeu…
    Abs.

  3. Márcio
    24 de outubro de 2013 at 16:26

    Eu utilizo o termo monobloco, vi o Giuliano utilizar uma vez e gostei, principalmente em conversas com amigos que não curtem camping.

    • José Luciano Gasparello Filho
      24 de outubro de 2013 at 18:43

      É um bom termo, mas facas que não são de perfil integral também podem ser monobloco, que significa, do meu ponto de vista, uma faca sem soldas entre a lâmina e o cabo (ou espiga).

  4. 24 de outubro de 2013 at 22:18

    particularmente acho que os termos em inglês só dificultam o aprendizado. Em todas as áreas, os termos confundem muitas vezes coisas simples.Acho que muitas coisas deveriam ser repensadas pelos usuários de equipamentos e se exigir como direito do consumidor que produtos ou manuais utilizassem a língua portuguesa. Vivemos no Brasil, porque temos que engolir a língua inglesa como base para tudo.

  5. Arnaldo
    25 de outubro de 2013 at 14:42

    Muito bom, ótima explicação! Eu gosto de chamar “full tang” de “lamina inteiriça”

    • José Luciano Gasparello Filho
      26 de outubro de 2013 at 20:43

      Caro Arnaldo,

      Confesso que gostei bastante de sua forma de nomear tal modelo de faca!

      Abraço

  6. Sidney
    25 de outubro de 2013 at 18:55

    Iae Gaspar!

    Concordo contigo sobre o uso de estrangeirismos desnecessariamente em nossa língua, que já é complexa e rica o suficiente para inserções indevidas e pedantes.

    Há palavras estrangeiras que não comportam tradução, ao menos em uma palavra apenas, e penso que estas inevitavelmente devem ser admitidas.

    No mais, está aí um belo tutorial sobre facas, sobretudo para quem é leigo (como eu :P) e caso eu tenha interesse em adquirir uma, será um elemento importante para analisar quando da aquisição.

    Abraçosss!!

    • José Luciano Gasparello Filho
      26 de outubro de 2013 at 20:41

      Caro Sidney!

      Muito bom tê-lo aqui prestigiando meus textos!

      Abraço

  7. Arnaldo
    27 de outubro de 2013 at 01:53

    Obrigado, Gasparello, pelo comentário! Gosto de acompanhar o seu trabalho aqui.

  8. thiago henrique
    28 de outubro de 2013 at 22:17

    Muito boa sua matéria… Sou mais um contra ficar “americanizando” nossa lingua(idioma), sem falar que se você for falar isso com um mateiro do interior, ele vai achar que tá tirando onda com ele…hehehe. Abçs

  9. Guilherme
    29 de outubro de 2013 at 12:49

    Gasparello, gostei muito de seus esclarecimentos e queria umas dicas. Estou interessado em comprar a faca Rubber da Mormaii, queria ela para pesca, camping em geral. É uma faca resistente? o cabo é firme? suporta algumas batidas? O revestimento da lamina é aconselhado? Vou comprar pela internet, ou seja sem ve-la fiscamente por isso as dúvidas. Se tiver alguma outra faca que possa me indicar para essas finalidades com valor acessivel. Obrigado!

    • José Luciano Gasparello Filho
      29 de outubro de 2013 at 15:12

      É uma boa faca, mas da mesma marca, prefira a Mormaii Edge. A Guepardo Hunter também é uma boa opção.

  10. Rubens César
    3 de dezembro de 2013 at 22:52

    Olá Gasparello !

    Em primeiro lugar gostaria de cumprimenta-lo pelo site,muito bom mesmo. Sou um grande admirador das práticas de sobrevivência e bushcraft. Moro no Ceará. Aqui a vegetação predominante é a caatinga e sem sombra de dúvidas o maior desafio de quem pratica esse esporte, ou lazer vamos dizer assim, é a falta d’água. No entanto gosto muito de assistir a seus videos e por em prática o que aprendi no mato.

    À respeito do vídeo, parabéns, a explicações de grande valia para os iniciantes como eu, no entanto faltou você falar sobre a faca Imbel IA2,pois me parece uma faca muito boa também.

    • José Luciano Gasparello Filho
      4 de dezembro de 2013 at 06:02

      Já falei sobre a faca IA2. Está na parte de facas nacionais.

  11. Guilherme
    5 de dezembro de 2013 at 17:49

    Boa tarde Gasparello! Parabéns pelos esclarecimentos! Comprei a faca Mormaii Rubber e confesso que não fiquei satisfeito, achei a faca muito pesada e com lamina bruta ficando dificil o trabalho com ela. Vi seu video sobre a Hunter da Guepardo, como faço a compra pela internet gostaria de uma ajuda. A Guepardo Hunter é mais leve e de lamina menos bruta que a Rubber? O que diz do tamanho da lamina? pequena demais? Alguma dica de outra faca para camping e bushcraft no valor?

  12. Tiago
    7 de julho de 2014 at 16:55

    Muito bom o artigo! Realmente, as vezes nós complicamos as coisas para parecer mais “chiques”. O comércio então, ama essas coisas.

    Mas pro dia a dia, um termo em bom português, acessível pra profissionais tanto quanto pra quem está começando, deveria ser o padrão.

    Se nas facas temos o problema dos perfis, quando o assunto são os canivetes, temos o mesmo problema nos tipos de travas. É liner lock, frame lock, axis lock, slip joint… E haja Google pra entender do que exatamente o anuncio ou análise (que já virou review) está falando…

  13. rafael augusto de lima dos reis
    17 de novembro de 2014 at 20:15

    maravilhoso o “bonitinho mas não explica nada” tu é bagual gasparello.

  14. Eduardo
    13 de setembro de 2015 at 00:16

    Parabéns pelo blog e pela matéria. Bastante esclarecedor! Gostaria de lhe pedir se há marcas mais confiáveis de facas. Encontrei alguns modelos da Taue e Columbia, mas não sei se a qualidade é boa. Gostaria de adquirir uma com 8 a 10 polegadas que tenha lâmina e também serra. Muito obrigado!

  15. willen
    1 de fevereiro de 2016 at 11:39

    olá bom dia,,,estou fazendo as primeiras experiências em cutelaria( mas acho que por meu nível nem assim pode ser chamado) e tenho muitas dificuldades em achar aços bons para desbaste na minha região..moro em paiçandu ao lado de maringa -pr..e só tenho limas e um esmeril hobby …qualquer ajuda em forma de instrução eu agradeceria muito…um bom dia a todos..
    e se tiver alguem aqui de perto para um contato mais próximo tb seria muito bom.

  16. 12 de maio de 2016 at 23:52

    Excelente texto!

  17. Taynô
    3 de março de 2017 at 01:24

    Olá Gasparello. Primeiramente, parabéns pelo blog e pelo post. (Só aí já foram dois estrangeirismos).
    Eu também, em geral, sou contra os estrangeirismo.
    Mas… porém… entretanto… todavia…
    Nesse caso (bem como também em muitos outros), nós, brasileiros, não temos uma definição formal ou regra geral para as nomenclaturas de partes e peças, seus significados, etc. Bastou ler alguns poucos comentários aqui do post e já encontrei no mínimo três possíveis traduções para o tal ‘full tang’.
    Por outro lado, na língua inglesa, não há a ocorrência de múltiplos termos. Ou seja, não há “um saco de sinônimos”.
    Dessa forma prefiro (ao menos por enquanto) o uso dos termos em inglês.
    Veja que o fato de que “os americanos tem essa mania de ficar dando nome para tudo” acaba fazendo com que eles tenham esses termos bem fixados e definidos.
    Ou seja, começarei a usar os termos em português assim que aqui tivermos também uma padronização.
    Abç.,
    Taynô.

  18. terra
    16 de junho de 2017 at 00:06

    Muito bom o blog, esta de parabéns!

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