Facas para uso outdoor: Nessmuk e Kephart

“Bushcraft” é um termo largamente utilizado na atualidade, em diversos países como a Austrália, a Inglaterra, a Nova Zelândia e a África do Sul, para referência a habilidades de sobrevivência e de vida ao ar livre. Tonou-se conhecido graças a programas de televisão como “A prova de tudo”, onde o protagonista, Bear Grylls, demonstra o conjunto mínimo de habilidades necessárias à sobrevivência em ambiente natural, habilidades estas adquiridas de suas experiências como militar e chefe escoteiro.

Geralmente são técnicas antigas, como as necessárias para construir abrigos naturais, fazer fogo, encontrar água e alimento em ambientes hostis ao homem moderno, mas o termo também é estendido para aquelas habilidades de rastreamento de animais, caça e pesca, uso de facas e ferramentas como machados, entalhe em madeira e construção rudimentar, habilidade em fazer nós e amarrar e utilizar cordas, etc. São conhecimentos que eram de domínio de nossos ancestrais, muitos ainda praticados em locais ermos e populações nativas ao redor do mundo.

O termo “bushcraft” é utilizado na Austrália desde o século XIX, aparecendo em diversos livros sobre a vida ao ar livre. O termo “bushman”, ou “bushcrafter” é utilizado para referência ao homem praticante do “bushcraft”. Ambos foram utilizados em diversos livros, como “The History of Australian Exploration from 1788 to 1888”, de  Ernest Favenc,publicado em 1888; “Campaign Pictures of the War in South Africa (1899-1900)”, de A. G. Hales, publicado em 1901, entre outros, que ajudaram em sua popularização.

Na cutelaria moderna há quase um ramo específico dedicado às facas utilizadas em atividades ao ar livre. O termo passou a ser designativo de facas robustas, leves o suficiente para serem carregadas em tempo integral e utilizadas para diversos fins, desde cortar uma corda e sangrar um animal, a preparar uma refeição e servir de talher. Seria o equivalente à ferramenta multiuso.

Neste pequeno artigo abordademos dois tipos de desenho de lâmina para uso intensivo, que despontam quando começamos a nos embrenhar pelo mundo das facas para “bushcraft”: Nessmuk e Kephart. Estes modelos já viraram designativo de tipos específicos de facas para uso “outdoor”, vejamos cada uma delas um pouco mais de perto.

A faca “Nessmuk”

George Washington Sears nasceu em Oxford Plains, Massachussets (EUA) a 2 de dezembro de 1821, o mais velho de 10 filhos. Um jovem índio chamado Narragansett Nessmuk lhe ensinou a caçar, a pescar e a acampar. Sears, que mais tarde adotaria o apelido de “Nessmuk”, foi um dos precursores do estilo de vida naturalista, desenvolvendo atividades junto à natureza durante a maior parte de sua vida.

Autor de diversos livros (alguns sobre campismo) e guia de acampamentos turísticos, incentivou a canoagem e o acampamento “ultra light”, onde utilizava uma canoa leve, tipo caiaque, e quase nenhum outro material, para suas incursões. Faleceu, provavelmente de complicações ligadas à tuberculose, em 1890.

Em suas atividades “outdoor”, defendia o uso da “tríade” de instrumentos cortantes: um machado de dois gumes para as tarefas de corte pesado, uma faca sinuosa de aço fino e empunhadura em chifre para o trabalho de corte e um canivete “Moose” de duas lâminas para as tarefas pequenas:

O que nos interessa aqui é a faca. Com desenho sinuoso e bem peculiar, com lâmina fina, sem guarda nem ricasso. A “corcova” próxima à ponta é sua principal característica. Bastante simples, seu principal mérito estava na espessura fina da lâmina, que se tornava bastante cortante após a devida afiação.

Nas fotos, réplicas da Nessmuk original, feitas por Dale Chudzinski:

Modernamente, alguns cuteleiros tem adicionado algumas partes inexistentes no desenho original, mas com bons resultados:

A faca “Kephart”

Horace Kephart (EUA, 1862-1931) foi autor, escritor e praticante de atividades ao ar livre norte americano. Passou a maior parte de sua vida viajando pelas montanhas do sul da América do Norte, pesquisando a região e seus habitantes.

Em 1913, foi o autor do livro “Our Southern Highlanders”, que se tornaria a obra definitiva sobre a região. Publicou também “Camping and Woodcraft”: A Guidebook for Those Who Travel in the Wilderness”, que se tornou a “bíblia” da vida ao ar livre no seu tempo.


Durante a década de 1920 contribuiu de modo decisivo para a criação do “Great Smoky Mountains National Park”. Faleceu em um acidente de automóvel, e não viveu para ver o Parque Nacional dando frutos em 1940.

Principalmente nos EUA, as técnicas de vida ao ar livre de Kephart, e as facas que ele entendia serem ideais para este tipo de atividade – facas simples e robustas, com lâmina terminada em um desenho “spear point” – são muito apreciadas nas atividades “outdoor”. Eram feitas com cabos de madeira, e se olharmos com atenção algumas facas de cozinha de hoje, com lâmina “spear point”, veremos características que são herança deste desenho.

Também é uma faca rústica e apta a ser “maltratada” em campo:

Versoes modernas também tem surgido, como este belo exemplar da empresa norte americana Bark River:

Estas são pequenas facas para “bushcraft” de minha autoria, inspiradas nos desenhos das Nessmuk e Kephart:

Ambas as facas – nessmuk ou kephart – são excelentes para uso externo geral, em acampamentos ou outras atividades ao ar livre – embora não sejam as mais indicadas para uso tático.

Esperamos, com este breve ensaio, ter aguçado a curiosidade do leitor para este tipo de ferramenta. Como apreciador destes estilos, as minhas facas pequenas tem procurado um equilíbrio entre os desenhos “Nessmuk” e “Kephart”. Ambas (“bull’s nose” ou “spear point”) são excelentes ferramentas para atividades ao ar livre e uso intensivo.

Até a próxima!

J. A. Voss é Tenente Coronel da Polícia Militar do Rio Grande do Sul, cuteleiro artesanal e Chefe Escoteiro. É um dos administradores do Fórum Cutelaria Artesanal (www.cutelariaartesanal.com.br/forum), mantenedor do site VCA Facas Artesanais (www.cutelariaartesanal.com.br/vca) e possui um blog em www.cutelariaartesanal.com.br/blogvca.

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  • 13 comentários para “Facas para uso outdoor: Nessmuk e Kephart

    1. 23 de junho de 2012 at 01:08

      Primeiramente parabéns pela participação no Blog Tocandira , muito bom mesmo , acredito que todos nos amantes da Cutelaria ficaremos ansiosos pelas novas postagens e para ir adquirindo novos conhecimentos sobre os mais variados tipos de laminas e seus usos , quer no buschcraft ou na área de sobrevivência , campismo e também no churrasco é claro.
      E também parabéns pelo esmero com que cria suas laminas e bainhas , verdadeiras obras de arte.
      Abraços

    2. 23 de junho de 2012 at 01:14

      Parabéns pelo artigo Voss, muito bom. Valeu pela participação no blog do Tocandira . Os amantes da cutelaria artesanal ficaram ansiosos pelos novos posts. Parabéns pelo esmero com que cria suas laminas e bainhas.

    3. ViniciusBR
      26 de junho de 2012 at 03:36

      Quantos cm tem essa faca Kephart ela e muito legal. Tenho uma pergunta: o machado no Brasil poderia ser substituído pelo facão na triade ? abrç

      • José Luciano Gasparello Filho
        26 de junho de 2012 at 09:50

        No Brasil é bem mais comum o uso do facão ao invés do machado, dadas as condições de vegetação bem fechada que encontramos, sendo necessária a abertura de picadas na mata. Mas algumas pessoas também gostam de levar o facão, apesar de que, em minha opinião, mesmo que você leve o machado, o facão ainda se faz necessário.

    4. SÉRGIO
      13 de julho de 2012 at 20:59

      Senhores e senhoras, saudações!!!
      Belo artigo. Gostei muito das referências históricas ilustradas com as imagens.
      Quanto a tríade referenciada, creio que a maioria dos praticantes de acampamento selvagem usam. Claro que culturalmente, no Brasil, usam o facão no lugar do machado.
      Tenho visto atualmente muitos esportistas adotando o machado como integrante do “quiver” de lâminas. Mas o facão vai junto!

      1 Abraaaaaaaaaço, Sérgio

    5. SID
      21 de julho de 2012 at 13:48

      ola !!! muito bem colocado seu artigo em relação as praticas mateiras usadas antigamente !!! sou fã dos seus projetos !!!!!! na minha opinião suas facas para bushcraft são as melhores !!!!!! abração a todos !!!!

    6. Quincas
      8 de setembro de 2013 at 16:32

      Muito bom o artigo. É o estilo de faca que mais gosto. Você citou um dos maiores cuteleiro deste estilo, João Alexandre Voss, que já é conhecido fora do Brasil pela sua qualidade.

      Abraços,

      Quincas

      • José Luciano Gasparello Filho
        10 de setembro de 2013 at 10:01

        Quem escreveu o artigo foi o Voss.

    7. Paulo Cesar
      21 de setembro de 2013 at 19:34

      Show de Matéria !!!
      Saúde Paz…
      Abraços
      P.César

    8. Vagnei
      4 de outubro de 2013 at 13:22

      Muito interessante esta história, faca é faca seja usada para uso tático ou não. Ela corta e perfura igual.
      Um facão tb pode cortar um braço e uma luta de facão tem um resultado tão mutilante quanto uma faca tática, agora se me falarem que o dono da faca prefere um modelo ou outro ai sim.
      Agora com certeza que uma faca mais robusta tem mais utilidade no mato pela sua espessura etc….. Excelente trabalho…. muito bom o texto e assunto.

    9. Leonardo
      1 de novembro de 2013 at 02:17

      Muito bom o artigo, achei por pura coincidência, mas fica feliz em dizer que sou o proprietário da faca “bushcraft sinais de pista” feita pela Alexandre, a faca da foto com uniforme escoteiro, faca esta que vem me servido muito bem em todos esses anos. Abraço a todos

    10. 2 de setembro de 2015 at 21:01

      Suas laminas superaram em muito as originais! Um dos trabalhos que mais me agradou até agora.

    11. Giulliano Rauschkolb Pires
      14 de dezembro de 2016 at 16:03

      Muito bom, gostei da história e do desenho da nessmuk, ja vou encomendar uma a um cuteleiro da minha cidade.rsrsrsrsrs

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