Como fazer um arco e flecha indígena

Fonte: Valter Campanato/ABr – Creative Commons Atribuição 3.0 Brasil

A produção de armas indígenas variam muito, tanto em tamanhos, formatos quanto no material empregado. Cada comunidade indígena aprendeu a trabalhar de acordo com os recursos naturais existentes em sua região e de acordo com o tipo de atividade. Existem arcos e flechas mais apropriados para a caça, para a pesca e para a defesa. Inclusive na caça, a variedade de arcos e flechas empregadas é enorme, cada tipo de animal poderá ter um equipamento diferente. A ideia principal deste artigo é falar sobre algumas madeiras e fibras naturais que podem ser utilizadas na construção de seu próprio arco e flecha, mas sem a pretensão de reproduzir fielmente qualquer peça à altura dos povos que ainda usam estes recursos para a sua sobrevivência.

Para escrever este artigo, utilizei a boa e  não tão velha Internet, pesquisando as madeiras naturais que poderiam me fornecer a matéria-prima correta, de preferência com plantas utilizadas pelos índios brasileiros. Depois que este artigo já estava quase pronto, tive a oportunidade de conhecer o Léo Rocha, protagonista do Desafio em Dose Dupla Brasil, que confirmou algumas informações e me deu outras dicas muito valiosas.

Como matéria prima para o arco, descobri no ipê roxo uma excelente opção. Não sei se todos os ipês se prestam para esta tarefa, mas acredito que sim, inclusive, algumas espécies são chamadas, também, de pau d’arco, um nome bem sugestivo! Li algumas referências sobre o uso do ipê amarelo, mas são tantas as variedades que preferi me ater ao ipê-roxo, mais citado. A minha primeira tentativa utilizando ipê-roxo você confere no link que vou deixar ao final do texto. Outras madeiras que podem oferecer bons arcos são o tucum, a aroeira, o pau-ferro, o guatambu, o limoeiro, o genipapeiro, o caule da pupunha e até mesmo o caule de outras palmeiras. Encontrei estas referências de árvores quando pesquisava sobre o material utilizado pelos índios brasileiros e também para arcos artesanais de madeira. Quando iniciei a pesquisa, haviam pouquíssimos textos para consulta, sendo que os mesmos eram replicados inúmeras vezes, deixando o trabalho de pesquisa mais infrutífero. Retomando o assunto meses depois, me surpreendi com novos materiais. Não fiz a lista de referências porque apenas li, aprendi e escrevi dias depois com base no conhecimento que formei a partir das diversas leituras, não me recordando exatamente quais as fontes que consultei.

Após a minha primeira tentativa frustrada de construir um arco com ipê-roxo, fui andar um pouco pelo cerrado procurando por árvores que pudessem ser flexíveis. Cortei, então, um galho de goiabeira. Em seguida ajeitei as extremidades para conseguir colocar uma cordinha e testar a flexibilidade. Fiquei contente com o resultado. Já estou de olho em alguns galhos de bom tamanho para testar a produção de novos arcos, agora, feitos de goiabeira. Quanto à goiabeira, encontrei vídeos no YouTube com alguns arcos artesanais, mas não encontrei referências na Internet para confirmar que tal madeira é ou foi utilizada na construção de arcos indígenas. Conversando com o Léo Rocha, ele confirmou que realmente podemos fazer arcos a partir de algumas plantas chamadas mirtáceas, como goiabeiras, jabuticabeiras, entre outras, mas que servem apenas para arcos de curta duração, sendo que o ipê-roxo e tucum seriam as melhores opções. Ele improvisou um arco de uma mirtácea rapidamente e realizamos alguns disparos.

Como corda natural, encontrei em minhas pesquisas a fibra de um palmeira chamada de tucum, mas não sei se esta espécie é encontrada no cerrado, acredito que não. Em conversas com o Léo Rocha, ele acabou me falando que as embaúbas, planta de variadas utilidades, podem fornecer algumas das melhores fibras para os arcos indígenas, inclusive ele mostrou como extrair as fibras e comentou sobre a forma de prepará-las adequadamente. As fibras das embaúbas são as opções de muitas tribos do Xingu para arcos de pesca. As fibras de tucum apodrecem rapidamente em contato com umidade, então são mais usadas para outros tipos de finalidade. Já li, também, que fibras de taquara podem ser utilizadas na produção de cordas para arcos indígenas, mas nas leituras não ficou claro se as cordas seriam produzidas exclusivamente com fibras de taquara ou se misturados com fibras de imbé (Fonte: http://www.paraty.com.br/guarani/arco_flecha.asp), esta última planta foi citada, também, pelo Léo Rocha para a produção de fibras naturais para amarrar penas e pontas das flechas. Somente para diversão, vou improvisando meus arcos com um segmento de corda de polipropileno de 2mm. Um dia testo a embaúba como se deve ou talvez até mesmo a taquara!

Quanto à madeira, é interessante deixá-la secar por um longo tempo. Se a pressa for grande, para emergências ou alguns poucos dias de diversão, você pode construir seu arco de madeira ainda verde que irá funcionar, mas também escolha um segundo pedaço ainda mais adequado para deixar secar antes de produzir um arco mais caprichado. É possível secar a madeira com fogo, mas nunca testei a técnica. Não sei se você acredita na influência da lua na questão do trato com os vegetais, mas se a lua influencia nas marés, pode influenciar também no transporte da seiva de uma árvore. Dizem que a madeira fica mais durável e menos propensa a ataques de pragas quanto cortada na lua minguante.

Acredito que nos belos arcos artesanais comercializados atualmente a madeira utilizada é de partes nobres das árvores. Eu faço mesmo é de galhos, mas não aqueles encontrados no chão, que geralmente estão podres. Talvez eu esteja me tornando gradativamente um eco-chato, mas acredito que algumas árvores são bem preciosas para virar um mero instrumento de diversão. Escolho com calma um galho que julgue adequado para a tarefa. Aliás, a procura pelas árvores e também pelos galhos mais apropriados é a parte que mais gosto na construção de um arco e flecha!

O que aprendi com a construção do meu primeiro arco é que os nós da madeira devem ser evitados. Se não conseguir um galho sem nenhum nó, pelo menos escolha um galho em que não haja nós na parte central, aonde será feita a empunhadura. Minha pequena experiência no assunto mostrou-me que os nós da madeira e arcos não combinam, além de deixarem o arco frágil, existe o problema de influenciar negativamente nas propriedades acústicas da madeira. Se for para diversão, não se preocupe tanto com isso.

Os arcos modernos são geralmente desbastados nas extremidades para concentrar a tensão nas partes mais fortes, mas os arcos indígenas geralmente usam a madeira inteira, sem desbastes, não que isto seja uma regra, dada a variedade de etnias indígenas em nosso país.

As flechas podem ser feitas de bambu ou de outras madeiras retas e geralmente leves. As penas são importantes para estabilizar a jornada da flecha, que segue girando. Para flechas parecidas com as indígenas brasileiras você pode utilizar duas penas para dar estabilidade. Você pode apontar a flecha para fazer a ponta do modo mais simples, ou ainda pode caprichar mais, elaborando uma ponta de pedra, madeira ou até mesmo metal. Algumas tribos utilizam-se de castanhas ou semente arredondadas para fazer pontas que não estraguem a carne das aves. Escrevi mais sobre flechas em outro artigo.

Estas são algumas dicas para a construção de um arco usando matéria-prima similar aquelas utilizadas pelos povos primitivos brasileiros. Nos arcos comerciais, além da madeira são utilizadas camadas de fibra de vidro ou de carbono, o que dá uma dificuldade a mais na construção para as pessoas comuns, mas um dia pretendo abordar, também, estas técnicas. Só não achei nenhum artesão com vontade de compartilhar suas habilidades. Se for construir seu próprio arco e suas flechas, muito cuidado.

Estes são instrumentos letais utilizados há séculos em guerras e também em caçadas. Divirta-se, mas lembre-se de não colocar em outras pessoas e também animais. Para diversão e prática, até mesmo flechas sem pontas podem ser utilizadas, como você poderá conferir em outro artigo que escrevi sobre o assunto.

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10 comentários para “Como fazer um arco e flecha indígena

  1. Antonio Carlos Perezzani
    12 de outubro de 2014 at 17:29

    Muito bom artigo! Gosto muito de arcos feitos de forma artesanal e a matéria me deixou satisfeito pelas informações. Vou testar algumas madeiras por aqui também!Um abraço.

  2. charles marlon john
    13 de outubro de 2014 at 21:41

    Muito bom o seu artigo, eu só queria enriquecer o seu artigo com mais um nome de uma madeira excelente para a fabricação de arcos, que é o (CUTIEIRO) um grande abraço aos amantes de arcos e flechas…

  3. Anderson Moscoso
    15 de outubro de 2014 at 01:23

    Parabéns pelo post, deve ter sido muito trabalhoso!!!!

  4. Eduardo Marques
    8 de dezembro de 2014 at 18:24

    Olá Gasparello.

    Gostei muito do artigo. Estou fazendo um de massaranduba e bambu, mas depois vou experimentar fazer um desse tb.
    Você já tentou fazer um desses? Quando vi logo imaginei que seria o tipo de coisa que você gostaria de por em um vídeo do seu canal no youtube.
    http://sensiblesurvival.blogspot.com.br/2012/03/build-bamboo-survival-bow-in-30-minutes.html

    • José Luciano Gasparello Filho
      8 de dezembro de 2014 at 18:36

      Caro Eduardo,

      Tem muita coisa que eu gostaria de tentar fazer, e não só arco e flecha. Queria fazer outras jangadas e embarcações, entre outras coisas, mas me falta tempo pra tanto! Obrigado pela dica, achei bem legal e vai entrar na lista!

      Abraço

  5. jilson lemos jansen
    18 de dezembro de 2014 at 01:00

    meus caros colegas eu também acho muito interessante o arco artesanal por essa razão acho que posso ajuda-los porque faço arco e flechas a mais de três decadas no rio grande do sul estado onde resido e consegui efetuar tiros com distancias ate 80 a 90 metros na minha regiao eu uso a laranjeira do mato o xincho e a guajuvira as flechas feitas de bambu e ponteira de aco embutida no nó fixada com durepox ***editado*** grande abraço a todos da pagina

  6. aloisio silva
    15 de fevereiro de 2015 at 23:34

    O PÉ DE CAFÉ É ÓTIMO JÁ USEI DE MAIS PARA FAZER O FAMOSO BODOGUE, ESTE TEM A VANTAJEM DE SER DOIS EM UM

  7. Rafael S.
    20 de fevereiro de 2016 at 09:42

    Ola! gostei muito das informações que você apresentou so quero deixar algumas opções de madeira encontrada em minha região, Leste de Minas. ” Garapa, Pitangueira, Aricanga (Pequena palmeira da região) e mulato.

    • José Luciano Gasparello Filho
      24 de fevereiro de 2016 at 09:32

      Obrigado pelas sugestões!

      • Antonio
        30 de agosto de 2016 at 15:42

        Uma madeira excente para arco que usamos aqui na Serra da mantiqueira do sul de Minas gerais é o nhapuçá, o cambuí e o rabo de macaco. Como corda usamos a embira.

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