A Viagem do Beagle – Charles Darwin

Após ter indicado a biografia de Charles Darwin – A Vida de um Evolucionista Atormentado – recebi a indicação do livro escrito pelo próprio Darwin, relatando a sua viagem de cinco anos ao redor do mundo a bordo do navio Beagle.

A leitura do livro, de um modo geral, é bem monótona na maior parte do tempo com descrições detalhadas em relação à geologia e botânica dos locais. Este tipo de leitura, um tanto lenta para o meu gosto, pode ser interessante para futuros cientistas, a fim de aprender como uma grande mente do século XIX pensava. Esses assuntos que achei monótonos podem ser interessantes para outras pessoas.

Eu gostei bastante dos relatos sobre a fauna dos diversos locais, não em relação às descrições e hábitos dos vários animais, mas porque deu uma boa ideia de como era abundante a quantidade de espécies selvagens fora da Europa naquela época e o quanto de vida selvagem se perdeu em detrimento do desenvolvimento humano pelo mundo.

Por outro lado, as observações antropológicas detalhadas de todos os povos com quem teve oportunidade de conviver durante a viagem são, em minha opinião, as melhores partes do livro! Ele descreve como eram os colonizadores do Brasil, Argentina e Uruguai, incluindo os péssimos modos dos brasileiros e a escravidão que ainda havia por aqui, apesar de sempre fazer menção ao Brasil como lugar da natureza mais exuberante que encontrou durante a viagem. De todos os povos descritos em sua longa viagem, destaca-se aquele que descreveu como o povo mais primitivo de todos, os habitantes da Terra do Fogo. Darwin também se maravilhou com o modo de vida dos gaúchos e suas habilidades a cavalo.

No Brasil, ele relata a fauna abundante, quando ainda era possível caçar sem muito esforço para a refeição do dia. Charles Darwin, ele mesmo um caçador, faz várias menções à atividade sem vislumbrar um futuro aonde os esforços para evitar a extinção de espécies seriam imensos. Aliás, Darwin, por várias vezes, fazia menção que provavelmente algumas espécies que estava caçando possivelmente seriam extintas em breve, mas não vislumbrava os impactos que a caça desenfreada causaria no planeta. Ele também fazia observações no estilo Richard Rasmussen, não se importando em causar sofrimento a alguns animais para averiguar seus hábitos, como da vez que ficou arremessando um lagarto de galápagos para o mar só para tentar descobrir porque ele voltava para terra e não se afastava do predador humano, até então desconhecido pela criatura. Não é possível criticar Darwin por algumas ações e caçadas relatadas no livro, uma vez que eram hábitos comuns aos homens da época. Ainda não existia a consciência do importante papel das diversas espécies para o equilíbrio ecológico.

Em sua passagem pela África, ele nos dá a ideia de como era abundante a vida selvagem daquela região e como era a caça descontrolada, que hoje empobreceu o mundo em quantidade e variedade de animais:

(…) Contudo, e com a bondade do Dr. Smith, posso demonstrar que tal não é verdade. Ele afirma que na latitude 24º, e numa viagem de um só dia em carro de bois, avistou, sem se afastar muito para qualquer lado do trajeto, entre 100  150 rinocerontes pertencentes a três espécies diferentes (…) os seus homens tinham morto, num determinado sítio, oito hipopótamos e avistado muitos outros (…)“.

Principalmente em sua passagem pela América do Sul, vários relatos de conflitos de imigrantes europeus com indígenas foram feitos, na maior parte do tempo são relatos dos massacres realizados contra tribos inteiras. Os indígenas, por sua vez, também tentavam dar o troco roubando e assassinando imigrantes. Os conflitos neste período eram intensos e hoje sabemos que a balança pendeu a favor do lado mais desenvolvido. Darwin também relata algo interessante acerca de conflitos entre os próprios indígenas, nos fazendo pensar que a história, cedo ou tarde, acaba por fazer com que os povos mais fortes dominem e até mesmo exterminem os mais fracos. Enquanto na Nova Zelândia, há o relato do período em que algumas tribos conseguiram armas de fogo, aproveitando a ocasião para exterminar outras tribos inimigas.

Ainda na América do Sul, além dos massacres contra os nativos, ele observou as ditaduras e a grande corrupção desses países, além, é claro, da escravidão de negros e índios. Leia um trecho de sua passagem pela nossa vizinha Argentina: “(…) O governador, de nome López, era um simples soldado à época da revolução, mas hoje encontra-se há dezessete anos no poder. Esta estabilidade governamental deve-se aos seus hábitos tirânicos, sendo que a tirania parece adaptar-se melhor do que o republicanismo a estas regiões. A ocupação favorita do governador é caçar índios: nos últimos tempos matara quarenta e oito e vendera os seus filhos a três ou quatro libras por cabeça(…)“.

Também são interessantes as várias citações aos bivaques realizados durante suas andanças por terra e as descrições de algumas técnicas de fogo primitivo, algo corriqueiro entre os diversos povos que visitou: “(…)Fizeram fogo esfregando um pau aguçado de madeira num encaixe feito noutro pedaço, como se quisessem enterrar o primeiro no segundo, até a fricção incendiar um pouco de serradura (…)“.

Do Brasil, o que mais marcou Darwin foi a escravidão: “(…) No dia 19 de agosto partimos finalmente das praias do Brasil. Graças a Deus nunca hei-de voltar a visitar um país de escravatura. Até hoje, quando ouço um gemido ao longe, lembro com uma viva dor os sentimentos que experimentei, quando, ao passar por certa casa nas proximidades de Pernambuco, ouvi os gritos mais dilacerantes e não pude deixar de suspeitar que fossem de um escravo que estava  a ser torturado, pois tal fora a explicação que tinham me dado numa situação semelhante(…)“.

Darwin não transcreveu seu diário inteiro, mas nos revela os trechos que achou serem os mais valiosos do seu ponto de vista. Os problemas que passou no navio são melhores relatados em sua biografia.

Como não gostei da leitura de cabo a rabo, não é um livro que indico com muita ênfase. Foram longos trechos que eu gostaria que acabassem logo, por outro lado, alguns pedaços de leitura foram muitos interessantes pelos fatos que citei. Sabendo o que irá encontrar na leitura, fica a seu critério a compra de tal publicação, impressa em português de Portugal.

Para conhecer Charles Darwin, indico fortemente a leitura do livro: Darwin – A Vida de um Evolucionista Atormentado.

 

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